RITUAIS DE
PASSAGEM – V – A MORTE
Talvez seja o único ritual de passagem que perdure em boa parte das
sociedades neste mundo globalizado, porém seus simbolismos são mais
perceptíveis quanto mais atrasadas forem as sociedades. Desde o costume de
velar ao morto, à declamar uma elegia, comer e / ou beber durante o funeral
ou até mesmo cantar para o morto, tudo tem um significado simbólico
relacionado nas sociedades mais antigas e hoje com toda mídia, tecnologia e
consumo descartável nem percebemos estes simbolismos.
Podemos nos ater na concepção da morte. Esta passagem magnífica que tem
dentro do seu cerne os elementos da destruição (Tanatos) e da construção
(Eros). Afinal o que é o sexo senão esta mistura entre vida e morte, se ao
sentirmos o orgasmo não entramos em estado de torpor puro ( uma
proto-morte), ou mesmo durante a alimentação, sorvemos feito vampiros que
somos a essência vital daquilo que matamos ou destruímos, tanto faz numa
churrascada, numa feijoada, numa salada ou até mesmo num copo de solução
salgada, vivemos nós de absorver os nutrientes dos animais e vegetais que
matamos (sem sentir um mínimo culpa, porque compramos a morte empacotada em
Supermercados, Açougues, Quitandas ou congêneres) ou nas reservas minerais
que destruímos, porque todo tipo de extração mineral causa anomalias ao meio
ambiente. Pode –se dizer que tanto a sociedade primitiva quanto a
globalizada são matadoras destruidoras, mas somente na sociedade industrial
isto se faz em grande escala e ainda se valoriza tal feito.
A morte portanto carrega uma mística toda especial, tendo em vista estar
relacionada ao medo, à destruição, ao desaparecimento, está também
relacionada ao acúmulo de riqueza ou à miséria dependendo da quantidades de
bocas a serem alimentadas e produção e muito mais a distribuição destes
alimentos; ao acúmulo de conhecimento ou à estagnação, tendo em vista se a
mesma chega antes ou depois da fase produtiva do homem, ou ainda ao
sofrimento ou à dor, tendo em vista se chega de maneira paulatina,
morrendo-se aos poucos ou fulminante. Pode –se dizer que a morte tem um
charme, podendo estar até relacionada ao prazer, principalmente o prazer de
destruir o outro. Não é isto o que os EUA estão querendo fazer, através da
destruição do inimigo, sublimar sua própria destruição ( Torres Gêmeas e
Pentágono), algo parecido com sociedades antropófagas, com uma diferença
quando um antropófago absorvia seu adversário o fazia de maneira
construtiva, ou porque o adversário era valoroso e merecia ser consumido ou
desejava retomar o ancestral absorvido pelo adversário. Não esta destruição
pela destruição!
A morte carrega muitos rituais em função desta mística. Os peruanos por
exemplo, miscigenando a cultura inca com a cristão, cantam para seus mortos,
os mexicanos, por sua vez misturam a cultura asteca à cristã, e fazem
procissões vestidos de caveiras, fazem caveiras de açúcar para serem
distribuídas às crianças, para que estas não temam a morte, outro exemplo
interessante é dos Filipinos que constróem verdadeiros palacetes ao invés de
túmulos, tendo em vista que todo aniversário de morte do falecido a família
dorme neste túmulo – casa, ou os japoneses que realizam comilanças durante o
funeral ou até mesmo os nordestinos com sua cultura de beber o morto, ou
seja, beber pinga em homenagem ao morto revelam que a morte tanto quanto a
vida carrega uma certa veneração, um certo respeito e por causa desde as
sociedades primitivas carrega símbolos e rituais próprios para demonstrar
todo este respeito e toda esta veneração.
Podemos dizer que o velar o morto seja um tipo de ritual de passagem
importante, ou seja para sublimar um sentimento de perda do ente que não
será mais visto, ou demonstrar a veneração a este ente que foi muito
importante para a formação ou aglutinação do núcleo familiar, ou ainda para
se conferir se a pessoa realmente morreu, porque a mesma pode ser
cataléptica e simplesmente parecer morta, ou ainda por tudo isto, que é o
mais provável. Apesar de hoje em dia o velar ter se tornado um fardo, raros
são os mortos que são velados durante vinte e quatro horas, somente
personalidades, tipo Aírton Senna e Tancredo Neves, às vezes chegando a ser
embalsamadas para se velar por mais dias, o caso do Tancredo Neves, ou ainda
a dor da perda se restringir apenas a primeira hora de velório, depois disto
começar a sessão piadas e “causos”, ainda sim o velar é um ritual muito
importante na modernidade, porque demonstra nossa fragilidade diante da
Morte, nossa única companheira durante a vida e torna –nos, mesmo com todo
nosso individualismo, nossa arrogância, nossa impáfia, um pouco mais humanos
e sensíveis perante os mistérios da vida e da morte.
Este temática veio a calhar de ser analisada em Outubro, mês do Halloween,
Festa Celtica, relacionada à passagem dos mortos para o mundo espiritual.
Podemos perceber que as sociedades primitivas antes de ter medo da morte,
tinham por esta respeito ( Aras de Sacrifício, Festas com representação
seres que simbolizam esta a caveira mexicana, o tronco – totem da festa do
Quarup, a procissão em homenagem a Osíris, Deus da Morte egípcio, Templos a
Tanatos, Deus grego da Morte, até mesmo nos Autos Medievais que já era
demostrada na figura que nos vem ao subconsciente até hoje) e louvor e ou
júbilo porque o tema não era tratado de maneira soturna, triste, definitiva
e sim de uma maneira leve, alegre e passageira, afinal era comum se fazer
festas para caracterizar a passagem do estado vivente para o estado etéreo,
do profano para o sagrado, do efêmero para o eterno, do Plano Real para o
Plano Ideal como acontecia no Halloween e que hoje em dia continua
acontecendo nas Sociedades Japonesas, Mexicanas, nas sociedades indígenas
das Américas, em algumas partes do interior do Brasil e de uma forma geral
em um ou outros rincão mais atrasado do mundo.
Espero que se mantenha este traço humano, sensível e simbólico dos rituais
de passagem relacionados à Morte e que não nos tornemos apenas mais uma
Commodity do vasto leque das coisas de valor do Capitalismo que depois de
mortos, bastaria nos esquartejar por inteiro e vender nossas partes. Algo
parecido com a sociedade descrita em “Admirável Mundo Novo” de Aldoux Huxley
em que cada pessoa era programada para nascer, como deveria viver e quando
deveria morrer e isto tudo de maneira individual, particular e solitária.
Sei que existe o tráfico de órgãos hoje em dia, mas penso que as pessoas
devem sempre lutar para se manterem solidárias, coletivas e integradas,
senão choraremos nos cantos escuros de nossa consciência ególatra. Pela
manutenção dos Rituais de Passagem da Morte e pela dos outros tantos
esquecidos. Rituais Já!